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  • mosteiroeishoji

Origem e significado do nome


MAHAMUNI


Teishos do Tokuda Sensei

Sesshins de fim de semana em Paris





Primeiro teisho

Manhã

Sábado, 30 de Janeiro de 1998




A partir deste sesshin e durante outros sesshins, eu quero falar de Mahamuni, o Grande Silêncio. Para estudar o Budismo, naturalmente temos necessidade de considerar o momento de iluminação do Buda Gautama, porque, claro, é o ponto de origem e original do Budismo sob todas suas formas, Hinayana e Mahayana.


No sesshin anterior, estudamos o samadhi, mas não somente estando sentado assim, mas estar sentado e entrar no samadhi. Samadhi, zanmai, isto quer dizer sujeito e objeto como uma só coisa, um, isto permanece em equilíbrio, a direita se torna a esquerda, a esquerda se tornaa direita, igualmente, no zazen os pés não tocam somente o solo, aqui é preciso a postura correta, hankafusa, meio lótus e se possível kekafusa, o lótus completo. Trata-se de apagar a dualidade, o zazen é o ponto onde o tempo e a eternidade se encontram, se cruzam.


O mesmo vale em relação ao espaço, o lugar onde se é o universo inteiro. Shikantaza, isto não quer dizer simplesmente estar sentado simplesmente assim, como um cocô de vaca. Entrar no samadhi fixo, é apreciar o 'samadhi autônomo'. Depois de ter obtido a iluminação, o Buda Gautama se alegrou com este 'samadhi autônomo.' Um sutra disse que ele mudava de lugar sete vezes, uma vez por semana, durante sete semanas. O que é esta alegria, esta felicidade do Dharma ? Depois de uma semana o Buda Gautama começou a perceber o que havia realmente se passado. Então depois ele disse que durante o zazen, o Dharma se manifestava. Se você pode ver o Dharma de interdependência das coisas, então você pode ver o dharma. Aquele que pode contemplar este Dharma se torna buda. Ele viu esta lei universal, esta verdade da interdependência das coisas. Isto quer dizer que se temos algo, temos também uma outra coisa, se não tivermos isto, não teremos a outra coisa.


Esta interdependência, engi, é uma coisa que se escoa, que está em mudança perpétua. A partir desta visão desta mudança perpétua, podemos observar que não existe um eu, o ego está no jogo desta interdependência. Então, depois de duas semanas, o Buda se perguntou com quem ele poderia partilhar este Dharma. No começo ele achou que não deveria falar deste Dharma, nada deveria dizer, pois se falasse ninguém compreenderia. Depois de seis anos de treinamento bem duro, ele havia obtido este Dharma e se ninguém compreendesse então ele ficaria não somente cansado mas seria inútil. É isto que chamamos 'o silêncio de Magadha,' que encontramos no sutra das refeições, o 'Bussho kapila', Buda nasceu em Kapila e se iluminou em Magadha.


É o que chamamos também da hesitação antes de começar a pregar o Dharma. Em geral, dizemos ou pensamos que o Buda veio a este mundo para salvar todos os seres, mas talvez não. No começo, a propósito do sofrimento, esta era sua própria indagação pessoal. Portanto depois de ter compreendido o que era o Dharma, ele hesitou, hesitou longamente antes de transmitir este dharma. Este foi o primeiro instante perigoso de sua vida de buda. Os sutras falam disto de uma forma mitológica e literal. Há duas partes : a primeira é o diálogo com o diabo e a segunda parte, o diálogo com os deuses. No momento de tais dúvidas, de saber se era preciso ensinar ou não tal Dharma, o diabo apareceu. E o diabo disse : sim, você deve manter o silêncio pois este silêncio é precioso. Depois de ter obtido a iluminação, como Jesus Cristo no deserto, o diabo lhe apareceu para o tentar. Mas ele obteve a iluminação e o diabo perdeu. Isto prova que o Buda ao menos era um ser humano e que se o diabo havia perdido desta vez seu território não estava completamente destruído. Se o Buda começasse a falar e se as pessoas compreendessem o que ele ensinava então o diabo perderia cada vez mais.


A segunda parte diz respeito ao diálogo do Buda com os deuses e isto se chama a 'Iniciação para o sermão de Brahma'. Brahma observou que o Buda hesitava a ensinar este Dharma, então ele lhe apareceu e disse : 'Se você não falar, não ensinar, este mundo estará perdido e destruído, mas se falar talvez alguém comece a compreender.' Assim pela terceira vez, ele o incitou a ensinar o Dharma e o Buda observou o estado deste mundo e o estado dos seres. Este conflito entre o diabo e os deuses aparece frequentemente nos sutras, mas ele é também o símbolo do conflito e do combate psicológico do ser. Finalmente o Buda começou a pregar e ensinar o Dharma.


Mas ainda uma vez, há uma expressão interrogativa muito engraçada num sutra : 'Se ficar entre as pessoas que quiserem compreender o Dharma está bem, com quem eu posso ficar?' É engraçado porque o Buda teve a iluminação, ele é o Buda e ele ainda está se perguntando 'com quem posso estudar ?' Porque geralmente quando se acha a verdade, se começa a ensinar e a divulgar para obter honras, reconhecimento. Neste período de Magadha, durante uma semana o Buda continuou na postura sentada a se colocar esta questão : 'Com quem posso falar, ensinar.' Numa pergunta deste tipo não existe somente a preocupação de ter discípulos ou uma comunidade. É uma questão de orgulho também pois a pessoa quer falar para ajudar os demais.


Finalmente este Dharma é começar a falar simplesmente depois de muita interrogação. Muitas pessoas deste mundo estão apegadas e prisioneiras do alaya, que é o inconsciente kármico e então não podem compreender este Dharma. Existem dois aspectos, um que é o 'madhyamika', o caminho do meio, o outro que é o 'yogachara', que é a prática constante. Nossa consciência e nossa inconsciência guardam todas as lembranças desde que nascemos e até de mais longe. Três ou quatro milhões de experiências do ser humano. Quando o espírito vê esta inconsciência kármica alaya, então existe uma presença constante deste.


Alaya é a mesma palavra que encontramos em 'Himalaya', que quer dizer depósito de neve, hima quer dizer neve, e alaya, depósito. Assim esta consciência alaya é o depósito onde estão depositadas todas as experiências. Alaya é oitava consciência, a sétima sendo manas, a consciência do ego, o ego contaminado. E quando esta sétima consciência vê a consciência de alaya, ela pensa na continuidade do ego e que este é eterno. Quando revemos nossas lembranças de infância, a família, o pai, o avô, os tios, a infância primeira, o período da escola, temos a impressão que nossa presença foi constante.


Mas mesmo assim há trinta ou quarenta anos éramos mais jovens e quando revemos alguém que não tínhamos visto há trinta anos, podemos primeiramente não o reconhecer, mas depois nos reconhecemos pois existe algo que subsiste. É a lei da interdependência pois de um lado algo continua constantemente e mesmo assim a cada momento isto muda, é como um rio que corre. É uma armadilha de nossa consciência ver a natureza como algo constante, de contínuo, mas mesmo assim isto muda como um rio que corre. Quem fica apegado a isto não compreende do que estou falando.

O Buda continuou a meditar e a questão seguinte depois foi : 'Com quem eu posso falar ?' Ele pensou primeiro nos dois mestres com quem ele já havia estudado, mas ele descobriu que já haviam morrido. Então quem mais poderia compreender ? Ele se lembrou dos cinco bikkhus que fizeram uma prática ascética com ele, mas em seguida ele havia abandonado tal prática pois este tipo de ensinamento não o ajudava a resolver suas dúvidas. Ele fez então seu primeiro sermão, o que corresponde à primeira linha do sutra, 'jodo makada,' Makada é nome antigo de Benares, e fica situado a uma distância de 150 kms entre as duas cidades e ainda tinha que se atravessar o Ganges, foi o primeiro sermão do Buda, em Benares. Naquela época não havia ônibus, nem trem, era a pé que se precisava chegar lá. Ele se dizia que estes cinco bikkhus talvez compreendessem seu Dharma.


Até o momento de se levantar houve muitos conflitos, muitas dificuldades. Finalmente ele se disse : 'Que aquele que tem ouvidos ouça, e este Dharma que eu ensino é como um maná celeste, aquele que o receber não conhecerá mais a morte.' Existem dois tipos de Dharmas. O primeiro, o Dharma da obtenção da iluminação, não se diz nada, não como há como expressar isto. O segundo Dharma é o sermão e isto se exprime. É a questão do Dharma da verdade, do absoluto, da sabedoria e da linguagem do mundo. O estudo do budismo, sua origem, vem deste ponto. Esta questão é também a sabedoria absoluta, a grande compaixão, que é começar a falar.


O Buda considera o mundo desde seu ponto de vista, ele viu flores de lótus que algumas ainda estava na água, outras já passavam da superfície e estavam prestes a se abrir. Isto queria dizer que os seres já estavam prontos e que se ele falasse, poderiam começar a compreender. No silêncio do Buda, existem duas partes : a primeira é o silêncio geral, e a segunda o silêncio quanto às questões metafísicas, transcendentais. A propósito do silêncio geral pode-se dizer que no começo havia o silêncio. É uma típica característica da Sangha Budista em relação às outras escolas.


Quando as visitamos vemos quantas pessoas adoram discutir, disputar, gritar, se excitar quanto a questões metafísicas ou filosóficas ou tomar temas inúteis no que toca o caminho da iluminação. Isto pode dizer respeito à guerra, de heróis, de homens, de mulheres, do cinema. Mas quando se visita uma Sangha Budista, é geralmente mais silenciosa sobretudo durante o zazen.


É a história de um rei que prestou visita ao Buda. Seu médico queria apresentar seu rei Sujata ao Buda e para tal penetraram numa floresta muito silenciosa que levava ao mosteiro. Num dado momento o rei ficou com medo deste silêncio, crendo haver traição, assassinos. Ele perguntou : 'Me disseram que o Buda vivia nesta floresta com mil e duzentos e cinquenta monges, como é possível que não se ouça uma voz, nem mesmo uma tosse ?' O médico responde : 'Eu lhe peço, não tenha medo, vamos um pouco mais adiante.' Quando chegaram, viram o Buda e seus discípulos sentados em zazen, como a lua entre todas as estrelas, mil duzentos e cinquenta. Podem imaginar isto na França pois isto aconteceu com Mestre Deshimaru e quatrocentas pessoas. Quatrocentas pessoas sentadas juntas, é formidável. Um silêncio total, é muito forte. Então o rei ficou muito impressionado em relação a outras sanghas e se perguntou como isto seria possível. Os discípulos deviam receber um treinamento muito bom, excelente. Este silêncio é o que se chama de silêncio sagrado, é o zazen, o silêncio completo, nobre, sagrado. Agora pratiquem este silêncio nobre e sagrado.


Quando o Buda não fala, isto quer dizer que ele aceita o que lhe foi proposto. Há anos atrás, um ocidental, um alemão, German Beck escreveu um livro sobre o Buda no qual ele diz que o silêncio do Buda é certamente tão importante quanto seus sermões.


A segunda parte é o silêncio sobre as questões metafísicas. Buda ficou silêncioso mas no Mahayana se começou a tratar de falar destas questões metafísicas. Um filósofo como Nagarjuna o fez, isto faz parte do Madhyamika, o caminho do meio, e esta tradição entrou no zen e muitos koans apareceram, o koan não é uma explicação, o koan é a expressão global desta iluminação diretamente, não dividida em dois para dar explicações com palavras. Às vezes é muito estranho, parece paradoxal, mas podemos ver que a expressão é diretamente a experiência ela mesma.







Sábado 30 de Janeiro de 1998

Segundo teisho

À tarde






É o prosseguimento desta manhã: a relação entre o grande silêncio e a expressão verbal. Em geral na tradição zen é dito que a experiência da iluminação é difícil de ser colocada na linguagem, mas Mestre Dogen tem uma opinião diferente. Se fosse impossível expressar isto pela linguagem por que o Buda, os patriarcas e tantos mestres zen continuaram a falar até os dias de hoje ? Há um capítulo do Shobogenzo que se chama 'Dotoku' que não tem uma tradução francesa, mas existe uma tradução inglesa de Nishiyama. Este trecho o qual vamos ler a seguir não vem desta tradução inglesa.


'Todos os budas e patriarcas falam do caminho, é por isto que quando os budas e patriarcas escolhem seus sucessores como herdeiros de Dharma claro que eles os questionam para saber se eles compreendem a forma de falar do caminho.


Este questionamento é feito com o corpo e mente, com um espanta-moscas, um leque, com um pilar, uma lanterna de pedra. Se eles não forem budas ou patriarcas, não podem nem questionar nem falar do caminho já que não possuem sua essência.'


Isto quer dizer : Se você compreende, então fale e faça perguntas também. Estas perguntas não são colocadas unicamente com palavras, podemos também bater com um bastão. Seja lá como for quando existe uma pergunta existe uma resposta e algo da experiência original se manifesta. Se realmente você tiver esta experiência religiosa original então poderá falar. Se não tiver experiência, claro que não poderá falar. Estas palavras não são uma explicação da iluminação ou uma interpretação dos sutras, mas quando você tiver tido esta experiência você poderá falar, poderá se exprimir como Mahakasyapa, sorrindo, ou como o segundo patriarca Eka que cortou sua mão e braço e sem palavras foi sentar em seu lugar e com isto tudo foi dito.


Se formos escolher quem é buda ou não, quem é patriarca ou não, escolheremos também o que tiver sido dito pela pessoa a qual escolhemos porque depois da experiência a pessoa pode dizer algo, por exemplo, perguntar, 'Você pode ou não falar desta experiência ?' E o discípulo lhe responder : 'Sim, mas se eu disser algo, já se torna imediatamente aspectos secundários.' Falando assim dos aspectos secundários ele testemunha diretamente sua experiência. Neste caso se você tiver tido esta experiência e se expressar esta experiência com palavras não há diferença entre a experiência e a expressão. É por isto que tantos koans parecem muito estranhos, paradoxais, porque a experiência original é muito diferente das coisas deste mundo. Não se trata de explicações, mas de querer aportar este silêncio absoluto na linguagem.


É também questão de sabedoria absoluta e de grande compaixão. Para mim, esta grande compaixão não é ajudar aos outros. É como quando você tem a iluminação, você se torna plenitude, se torna pleno, e se não falar, se não sair de você mesmo, acaba sofrendo. Se você tiver esta experiência, esta iluminação, você é quase que obrigado a falar disto.Nesta manhã eu disse que depois de sua experiência, o Buda Gautama hesitou entre manter o silêncio ou começar a falar. É como o drama do diálogo entre o diabo e Deus. O diabo e Deus começaram a discutir entre eles e o Buda permaneceu sentado em silêncio e finalmente ele se levantou e durante quarenta e cinco anos ele foi a muitos lugares para ensinar o dharma. É preciso se imaginar este momento de hesitação, talvez um instante ou uma semana e uma vez tendo sido tomada a decisão foram quarenta e cinco anos de ensinamentos. Uma semana e quarenta e cinco anos, é a mesma coisa. Esta dúvida, esta hesitação, é extremamente intensa. Este primeiro sermão, foi o sermão das 'Quatro Nobres Verdades.'


Estas 'Quatro Nobres Verdades' são muito diferentes de sua própria iluminação, de seu próprio satori. Durante estes períodos de silêncio, uma semana ou mais, ele também organizou o que ele poderia dizer, ensinar aos outros. Um dia, na floresta, mostrando uma folha de uma árvore, ele disse : ' Esta folha representa o que eu disse, e todas as demais folhas da floresta, o que eu não disse.' Se tivermos esta experiência da iluminação é como uma fonte, uma aparição de coisas das quais se pode falar. É como as explicações, os comentários dos sutras. O koan vem diretamente da experiência feita palavras. Dogen disse: 'Nós escolhemos os mestres em função do que estes mestres possam dizer.' Esta palavra, este dizer, vem diretamente da origem e Mestre Dogen tem uma grande confiança nesta linguagem. Como manifestar esta verdade na expressão ? Para isto Mestre Dogen se concentrou muito na redação dos capítulos do Shobogenzo.


Eu encontrei o Budismo Zen através de Daisetz Suzuki e um dia eu encontrei numa livraria o livro do Shobogenzo que mudou minha vida. Eu me tornei monge e em seguida missionário. Existe uma frase do Shobogenzo que tem este tipo de força. Eu não compreendi totalmente o que ela queria dizer, mas ao lê-la, recebi um grande choque e tive a sensação que havia nela algo que me dizia respeito. Se você sentar e obtiver a iluminação, pode falar e esta palavra tem a qualidade da iluminação. Desta vez você viu e porque viu, pode falar sem qualquer dúvida. Por causa disto, esta palavra inclui a iluminação. Esta iluminação já lhe obriga a falar. E esta palavra e esta iluminação são uma só coisa. É o que chamamos de palavras de ferro, como os trilhos de um trem, são coisas que não se alteram, que podem atravessar o passado, o presente, e o futuro sem interrupção.


Depois disto você pode continuar a prática três, dez anos, vinte anos, com esta prática, mesmo que você mesmo não a sinta, já está falando com o corpo. Essa palavra não se faz somente com palavras, porque existem coisas que não se podem traduzir com palavras, às vezes falamos com nossos atos e talvez nestes momentos não estejamos conscientes de estar falando, podemos ouvir como aquele que passa o kyosaku passa pelas suas costas, podemos ver se nossa concentração é muito profunda, se estamos lutando com uma sonolência, ou se estamos lutando com dores nas pernas. Não estamos conscientes disto, mas nossas costas dizem tudo. Também aquele que passa o kyosaku bate diretamente, não é quem passa o kyosaku que queira bater, mas é o kyosaku mesmo que está lá e fazemos gassho juntos e apreciamos como é bom e que gratidão podemos ter para tal, porque esta batida, este impacto é o momento exato, a cada batida do kyosaku aparece um novo buda, é o significado mais importante da utilização do kyosaku.


Mestre Joshu disse : 'Se ficar durante quinze anos num mosteiro sem pronunciar uma só palavra, ninguém pode criticar ou dizer que você não seja um mestre.' Quando encontramos com um monge, com a forma com que ele porta o koromo, a cor do kesa, se o kesa está gasto com a prática e como, a forma com a qual ele faz gassho, seus gestos, podemos perceber algo sobre a prática. As pessoas dizem : 'Ah, está muito bem, com que mestre ele praticou, quantos anos.' Para terminar o teisho, aqui vai uma história : havia um discípulo de Mestre Seppo que vivia em algum lugar na montanha. Um dia um monge foi lhe prestar uma visita. Este monge parecia um pouco diferente, e o que visitava perguntou : 'Qual o significado da vinda de Bodhidharma para a China ?' Ele responde : 'Este vale é muito profundo e o cabo de minha concha é muito curto.' O visitante voltou a Mestre Seppo para lhe contar do encontro.


Mestre Seppo disse : 'Ah, ele fala muito bem, quero verificar ainda mais uma vez.' Ele preparou o necessário para cortar o cabelo muito comprido do monge da montanha. Lá chegando, disse : 'Se puder me dizer algo, eu não lhe rasparei a cabeça, se não puder dizer nada, eu lhe rasparei a cabeça.' Então o monge se levantou, lavou a cabeça e se preparou para que lhe raspassem a cabeça. Seppo imediatamente lhe raspou a cabeça. Eis aí a história. Então este monge falou ou não falou ? Se Seppo não fosse um verdadeiro mestre, não poderia raspar sua cabeça. Isto é uma pessoa que se encontra com outra, ou em outras palavras, Buda encontra com Buda. Somente Buda pode se encontrar com Buda. Isto acontece muito raramente, mas acontece.







Domingo, 31 de janeiro de 1998

Manhã






Antes de começar o teisho, queria dizer algo. Durante o zazen matinal, quando entrava no samadhi, tive uma sensação, um sentimento de gratidão, obrigado a todos vocês que estão aqui. Senti que havia começado a 'entrar' na França, em Paris e que minhas raízes começavam a entrar e a crescer na terra. O zazen como é praticado no dojo, durante a semana, com menos gente, não é tão forte, é mais frágil. Há já vários anos, constantemente pessoas vêm e vão. E esta força é que me dá força. Nos sesshins também, há cerca de quinze pessoas, um pouco mais, um pouco menos, e sempre pessoas que vêm precisamente para o sesshin, mesmo que seja de longe. E esta constância, esta continuidade são uma força também. E esta força me dá força e podemos sentir a confiança que nos damos uns aos outros. Aqueles que aqui frequentam não podem esperar grande coisa. Eu não conto com o espetáculo, a televisão, o jornalismo, isto perturba, rivalidades, poderes, ambições. Claro, não podemos escapar disto. Portanto, nesta manhã senti gratidão, um pequeno grupo como este, vocês, assim como é, está perfeito. Se crescer, muito bem, não sou contra, mas como está agora, é perfeito.


Uma outra coisa, é meu francês. Quando a pessoa é velha, é difícil, sinto muito, mas eu sinto que vou talvez começar a falar. Com vocês, posso falar uma mistura de francês, português e inglês, com sotaque e mais ou menos vocês me compreendem, mas se chegar algum estrangeiro, ele vai se perguntar o que será isto, mas isto não tem importância, é um processo, é assim que se começa. É o espírito do missionário. Meu mestre me disse : 'Você vai naquele país, você ensina o Dharma na língua daquele país, você não vai acompanhado de alguma outra pessoa, você vai sozinho.' Eu parti e fiquei no Brasil durante vinte e cinco anos, agora estou aqui e recomeço tudo desde o zero. Eu estou feliz já com suas presenças aqui, sinto que vou ficar. Meu trabalho começa aqui. Há pessoas que são muito sensíveis, muito frágeis, que querem ficar em lugares onde são compreendidas.


Ontem comecei a falar do silêncio do Buda em geral. Existem muitos detalhes que virão mais tarde. Hoje, no último teisho, gostaria de falar do silêncio do Buda sobre questões metafísicas, problemas transcendentais. Ele não respondeu sobre tais problemas, ficou em silêncio. Um de seus discípulos lhe colocou uma pergunta sobre tais problemas dizendo : 'Se eu não obtiver uma resposta sobre tais problemas, deixarei a Sangha.' Quatorze tipos de questões :


Primeira categoria


Este mundo continuará eternamente ou não

Este mundo terá um fim

Este mundo continua para sempre ou terá um fim

Não continua eternamente e não é eterno


Segunda categoria


Este mundo tem um limite no espaço

Ele tem um limite

Ele tem um limite e não um fim

Ele nem tem um fim nem um não fim


Terceira categoria


A alma e o corpo são unos

A alma e o corpo são diferentes


Quarta categoria


O Tathagata continua depois da morte

O Tathagata não continua depois da morte

O Tathagata continua e não continua depois da morte

O Tathagata nem continua nem acaba



O Buda não respondeu diretamente a este tipo de perguntas, pois fazer estas perguntas é como alguém que foi atingido uma flecha envenenada a qual é necessário remover imediatamente e tratar da pessoa. Mas quando uma pessoa chega com uma tal flecha ela pode dizer : 'Você não pode tirar a flecha antes eu saiba de que veneno se trata. É um veneno que provém de uma serpente, mas de qual serpente ? E de que material é feita a flecha ? E as plumas desta flecha, são de que pássaro ?' Seria como se fosse preciso compreender tudo sobre a flecha antes de a remover e claro quando você tiver compreendido tudo, já estará morto. Afinal este tipo de pergunta metafísica não ajuda à nossa saúde, não permite sair do sofrimento. Este monge, Maha-Rukia, compreendeu e finalmente ficou na Sangha. Em seguida um outro monge chegou e colocou uma pergunta parecida, o Buda não respondeu e o monge deixou a Sangha. Se retirarmos a flecha envenenada, depois teremos o tempo de dar uma explicação. Para esta questão : O Tathagata depois de sua morte, continua ou não ? Ele continua e não continua. Não existe 'continua e não continua,' nem 'não continua, nem não continua.' Eles prepararam tudo para que não se possa escapar, mas o Buda não respondeu a tais perguntas, ele manteve o silêncio.


O Budismo Mahayana vem sobretudo de Nagarjuna. Ele quis responder a tais perguntas, era como se fora um desafio. Naquela época, na Índia, um pouco como na Grécia, havia muitas escolas filosóficas que professavam teorias diferentes. Nagarjuna queria não somente dar respostas para as diferentes escolas Budistas, mas também respostas válidas para outras escolas não-Budistas. Ele escreveu o Madhyamika, que é o 'Tratado do Caminho do Meio'. É um poema e a primeira estrofe começa assim : 'Oito Nãos.' É como o Hannya Shingyo, uma sucessão de negações e sem aparições, nem desaparições, sem eternidade, nem ausência de eternidade, nem um, nem não um, nem vem, nem vai, são oito nãos. Eles se prosterna, é 'engi', a interdependência, isto quer dizer o vazio. Toda discussão entra no silêncio. Desta forma ele falou, mas a palavra mesma é o silêncio. Desta forma a escola de Nagarjuna, a 'Escola do Madhyamika', apareceu. Seu sucessor, Kanadaiba, falava muito bem, mais ainda do que Nagarjuna e ele destruiu todas as demais escolas que ficaram encolerizadas porque ficaram arruínadas, os discípulos foram embora, e um dia eles mataram Kanadaiba. Mas ele já havia transmitido o Dharma a seus discípulos.


Um discípulo veio e lhe perguntou : 'Quem vos assassinou ?' 'Eu mesmo,' ele respondeu. 'Como isto é possível ? Para onde foi ele, o assassino, em que direção ?' 'Isto não tem importância, não é preciso ir atrás dele, não estou muito bem, mas eu ataquei os outros e agora estou recebendo os efeitos de tal causa. Eu lhes peço, não busquem vingança.'


Uma outra escola, a 'Escola Yogachara', disse que nada há fora da consciência, mas ela também tratou deste problema : 'Depois que o Tathagata se for sua alma continua ou não ?' A resposta é nem sim, nem não. Sem resposta. Por que ? Da mesma forma que a consciência Alaya guarda todas as lembranças, o ego que contempla tal consciência Alaya dá uma sensação de continuidade eterna. Mas de um outro lado, as coisas mudam constantemente, mas nós queremos que nossa vida continue para sempre.


É como com a iluminação, a considerar como de uma natureza fixa, é um erro, isto não existe. Dogen Zenji disse : 'Primeiramente vocês devem sentir a impermanência das coisas deste mundo.' Isto nada tem de misterioso, é muito simples. Mas é muito difícil sentir profundamente esta impermanência. Simplesmente, tudo muda. Por que não podemos aceitar isto simplesmente ? Porque nossa consciência, nosso ego, são muito fortes. Mesmo com um treinamento forte, queremos manter isto ; Se não compreendermos isto não poderemos despertar a mente bodhi e mesmo com estudo e treinamento fortes, é nosso ego que fica o mais forte. Este silêncio, é o fim de todas discussões, é a calma e isto provém das Oito Negações.


O 'Tratado do Caminho do Meio' de Nagarjuna dá explicações sobre estas Oito Negações. O que é o vazio ? O que é engi, a lei da interdependência das coisas ? O que é o Caminho do Meio ? Aquilo sobre o quê o Buda manteve o silêncio foi aquilo que Nagarjuna tentou esclarecer pela linguagem. É o que Dogen disse a propósito da madeira, do fogo e da cinza. Todos estes estados são diferentes e separados, mas não são independentes. Aparentemente há uma sucessão, mas cada um é um momento perfeito e independente dos outros. Este tipo de pergunta está sendo colocado na física há cerca de vinte anos e a ciência e a religião se aproximam e podem se encontrar sobre este ponto. Há muitos professores de física que vieram fazer zazen e eu me pergunto por quê. Eles têm este tipo de pergunta e era um sofrimento para eles. O Sutra Kegon, o Madhyamika, têm respostas para este tipo de pergunta. Entrar neste microcosmo. Entrar neste micromundo, este microcosmo e simultaneamente a pessoa compreende este mundo macrocósmico e astronômico. Dogen Zenji tratou esta questão : 'Depois de nossa morte, existe ou não uma reencarnação?' No Bendowa e no Sokushin Zebutsu, capítulos do Shobogenzo, ele aborda esta questão.


Nos dias de hoje, esta é uma pergunta que se coloca por toda parte, existem terapias que dizem que se conhecermos nossas vidas anterioras, nossa última encarnação, saberemos porque somos assim nesta existência. Psicologia, pré-psicologia, psicoterapia, telepatia. Por que o Buda Gautama manteve o silêncio sobre este ponto ? Ele sabia da resposta ou não ? Ele a conhecia. E pelo fato mesmo de a conhecer, ele não podia responder. Porque é algo que está por trás desta pergunta. Mesmo com estas categorias, mesmo se repetirmos cem vezes não, não, não, e não, ainda está além desta técnica. Pode-se dizer que é um segredo do nirvana. Não é senão com a iluminação do nirvana que podemos começar a compreender. É a mesma coisas para a luz.


A luz é uma sombra ou um seguimento de pequenos grãos de partículas? É uma questão de ponto de vista. Portanto 'sim e ao mesmo tempo não.' Mas queremos um sim ou um não, um ou outro claramente. Buda nunca falou da criação do mundo, como este mundo começou. Nos dias de hoje há monges estúpidos que dizem que o budismo nunca falou de tais coisas, mas o Budismo jamais se opôs à ciência, ele não se está realmente interessado como pode ter ocorrido com o Cristianismo ou com o Marxismo. Durante a última guerra muitos Budistas ajudaram o governo militar. Eles nunca realmente refletiram quanto ao serviço militar, foi assim somente para ajudar. Mas os desenvolvimentos filosóficos do Budismo se aproximam dos desenvolvimentos científicos recentes. Nos dias de hoje, a ciência se desligou dos problemas éticos, e problemas morais se colocam e é por isto que quando chega uma pessoa, Dogen Zenji e seus textos, por exemplo, são de um interesse capital para a humanidade. Seja lá como for, estas coisas que não podemos definir através da linguagem, é a verdade. Há estas oito negações, mas isto é também exatamente o silêncio do Buda. Por um outro lado, a presença dos Budas e Patriarcas é também uma palavra porque com seus corpos eles manifestam exatamente aquilo que é.


Antes de escrever o Shobogenzo, Mestre Dogen havia lido os clássicos, como o Madhyamika, e é como se todas as linhagens, as transmissões se fundissem e se reunissem nele. Neste sentido Dogen Zenji não é somente um mestre zen, não é somente um roshi, ele é também na história do Budismo e também na história da humanidade, uma pessoa especial. É por isto que é necessário estudar no nosso grupo o zen e entrar no estudo do Shobogenzo pouco a pouco. Todas as tradições do budismo, o Mahayana, o zen no meu caso. Dogen Zenji respeitava profundamente um mestre Chinês, Wanshi Zenji. Este mestre havia escrito um pequeno tratado, Moku Sho Mei, 'Mei 'é a mesma coisa que no Shin Jin Mei. 'Mei' é o canto, o tratado. 'Moku 'quer dizer silêncio, 'Sho', a luz, a iluminação.


O Moku Sho Zen entrou na corrente Soto, enquanto que a linhagem Rinzai ficou mais com os koans, 'Kanna Zen'. Então existem o 'Moku Sho Zen' e o 'Kanna Zen'. O Rinzai é o descendente de 'Daisoko', o sistema de koans. Nossa linhagem é Wanshi Zenji e Dogen Zenji, a iluminação silenciosa. O livro de Wanshi Zenji é curto, dez capítulos. Neste livro onde existem poemas, é preciso examinar como ele utiliza o kanji (letra chinesa) que significa o silêncio. Este kanji associado com um outro dá muitas ideias sobre o silêncio. No futuro será necessário entrar neste tipo de silêncio. A mesma coisa vale para Dogen Zenji no 'Genjokoan,' 'Como a verdade se manifesta', ou no 'Sho ho jisso', 'Todos os fenômenos são forma verdadeira', ambos capítulos do Shobogenzo. Esta filosofia vem da Escola Tendai, está no Sutra do Lótus. Na Escola Kegon existe também muitos tipos de silêncio. Também no Sutra Vimalakirti o silêncio é mantido. No Budismo, existem muitos silêncios, claro podemos encontrar isto também em outras religiões, mas não de uma maneira tão contundente.


Pergunta: É a propósito daquelas questões do começo e fim do mundo, eu me lembro que há vários anos eu vi uma Mandala de Kalachakra na Villette e o Tantra de Kalachakra é também um texto que explica o nascimento e o fim dos estados do mundo. Queria saber se você tem conhecimento se tal coisa teve influência no Budismo Japonês?


Resposta: O que está conservado nos tantras Tibetanos são os últimos desenvolvimentos esotéricos do Budismo Hindu que entrou no Tibete e no Japão também. Na Escola Shingon. As escolas se desenvolveram teoricamente, Tendai para o Kegon, e além disto há um passo suplementar que é o Shingon. Com o tempo o Hinduísmo teve uma influência. Muita da cosmologia, das imagens e das personagens estranhas. Muitos deuses do Hinduísmo entraram de forma simbólica como Shiva, Brahma e principalmente cinco Budas, aqueles das quatro direções e aquele do centro. Nas comunidades eles mantiveram e desenvolveram as técnicas secretas do Chamanismo e do Animismo. Claro que as cerimônias são secretas. Ali se pratica a meditação, os mudras cada um com seu significado, mantras secretos e o espírito atinge o estado de Sokushin Zebutsu, 'com este corpo eu me torno imediatamente buda.' O problema é que a pessoa entra diretamente mas quando ela sai ninguém sente que ela esteja realmente na presença do Buda, ela mesma nada sente. Por que? Dogen zenji conhecia isto e no 'Bendowa,' capítulo do Shobogenzo, ele respondeu a 'Sokushin Zebutsu.'


O Mahamudra está próximo ao Zen mas o espírito do Zen, aquele transmitido pelos patriarcas, pelos mondos e pelas trocas, não se pode comparar a tal. Mas não podemos ficar orgulhosos de tal porque o Zen hoje é muito fraco. Portanto como eu disse nesta manhã, este pequeno grupo deve continuar durante três anos, cinco anos, dez anos, vinte anos. Continuem e começarão a falar mesmo que não se dêem conta. É como o gongo que ressoa mesmo antes que se comece a bater nele, já ouvimos a vibração antes que tenhamos a consciência do despertar e nada podemos fazer para impedir isto. Devemos também estudar o Shingon, existem muitas coisas interessantes, mas a primeira coisa é a confiança naquilo que fazemos. Esta confiança é praticamente a mesma coisa que o despertar e com ela começamos a respeitar os outros, eles têm outros métodos, mas quando eles sentem naturalmente sentimos o seu valor, não há aqui embaraço nem medo. É muito bom ter contatos com outras escolas, outros grupos de Zen. Estas trocas, este respeito, é muito bom.







Sesshin de fim de semana

Sábado 28 de fevereiro de 1998

Primeiro teisho

Manhã







Eu falei do silêncio do Buda quanto às questões metafísicas. Muitas pessoas prestaram atenção sobre este silêncio do Buda como por exemplo Hermann Bach que escreveu um livro em alemão, sobre o Buda e seu ensinamento e onde uma parte do livro está consagrado ao silêncio do Buda. Para compreender a influência do budismo sobre sua época é necessário estudar não somente o que ele disse, mas também o seu silêncio. Limitar-se a estudar e a compreender o que o Buda disse não é suficiente, isto seria somente uma parte. A força do Buda é a força da palavra, mas também a força do silêncio. Compreender corretamente o sentido deste silêncio é muito importante para compreender o Budismo no seu conjunto. Este silêncio é uma característica importante do Buda e do Budismo e é também uma importante característica do treinamento, da prática.


Em geral, quando falamos do silêncio na vida cotidiana o consideramos como algo de fácil e no que toca ao Buda, o silêncio tem um significado muito profundo, que é ativo. Um exemplo da vida cotidiana, quando o Buda recebia um convite para uma refeição, ele a recebia em silêncio. Para mim, isto é muito importante. Alguém chega diante do Buda e o convida a comer e em silêncio o Buda faz compreender a esta pessoa se ele aceita ou não. Um dia o Buda e alguns de seus discípulos chegaram a uma cidade que se chamava Vakari. Eles foram a uma floresta de mangueiras cuja proprietária se chamava Amapari. Era uma prostituta de muito alta categoria.


Na Índia quando a pessoa era muito rico era mais do que um rei de um país. Estas prostitutas de alta categoria tinham clientes igualmente de alto status. Dizem que este é o emprego mais antigo do mundo e já a Bíblia mencionava isto com Maria Madalena e Jesus Cristo. Nos dias de hoje vários escândalos explodiram por exemplo, nos Estados Unidos, onde pessoas célebres, diplomatas, atores encontram em clubes especiais mulheres muito belas. Amapari ouviu falar do Buda que estava no Jardim das Mangueiras e foi vê-lo em sua carruagem. Buda deu um sermão que a deixou muito feliz e ela o convidou para jantar no dia seguinte. O sutra diz que naquele momento o Buda aceitou o convite em silêncio. Pouco tempo depois chegaram nobres de uma outra cidade que igualmente queriam convidar o Buda para o mesmo dia e hora. O Buda disse que não podia aceitar este convite pois já havia aceito um convite para o dia seguinte. Eles insistiram para saber quem era a pessoa quem era pessoa que o havia convidado e o Buda disse : 'Amapari.'


Eles a foram ver e insistiram para a convencer a abandonar o convite em troca de muito dinheiro. Amapari declinou o convite dizendo que as riquezas da cidade inteira não bastariam para tal. Uma disputa se levantou, mas Amapari disse não com firmeza. Na noite seguinte ela preparou uma refeição para o Buda e seus discípulos, e em seguida o Buda deu um sermão que a fez muito feliz. Mais tarde Amapari teve um filho que se tornou discíulo do Buda e em seguida monge. Depois do convite Amapari se sentiu tão feliz que ofereceu o jardim das mangueiras para o Buda e sua sangha. Seu filho se tornou bhikku em seguida obtendo a iluminação, arhat. Ele deu ensinamentos à sua mãe que se tornou monja no fim de sua vida, não me lembro mais se ela se tornou também arhat. Neste caso portanto, o Buda recebeu o convite em silêncio como em muitos outros casos. Existe um pequeno sutra, o Potthapada Sutra, que não pertence à escola Budista, mas a uma outra escola filosófica Hindú onde as pessoas se encontravam para falar do futuro do mundo. Um dia o Buda chegou e o responsável por esta escola disse : 'Calem-se, calem-se, o Buda chegou e ele gosta muito do silêncio e se o acolhermos com esta atitutde ele nos visitará de novo.'


Uma outra história, aquela do rei Bimbisara. Um médico miuito bom, Jivaka, era médico tanto do Buda Gautama quanto daquele rei. Por intermédio daquele médico, o rei Bimbisara queria se encontrar com o Buda. Combinaram de se encontrar no mosteiro na floresta. De repente o rei foi tomado de medo, dizendo ao médico Jivaka : 'O Buda está nesta floresta com duzentos e cinquenta discípulos e não consigo ouvir nenhum ruído.' Jivaka o assegurou que estava tudo bem. Finalmente eles chegaram numa clareira e viram o Buda e seus duzentos e cinquenta discípulos sentados em zazen. O rei ficou profundamente emocionado. Era como um lago no meio da floresta com o luar e numerosas estrelas que cintilavam. Ele disse de si para si : 'Se meu filho praticasse assim, como eu ficaria feliz.'


Finalmente seu filho, o príncipe, acabou o matando. História terrível, história terrível que se parece àquela de Édipo. Um dia Anatapindeva, um milionário que fazia doações aos desprovidos estava fazendo um passeio e achou um lugar muito calmo que ele avaliou como magnífico para um mosteiro, não muito longe da cidade, mas suficientemente para que não se ouvisse os barulhos da cidade. Ele decidiu oferecer este local à Sangha. Ele perguntou então a quem aquele local pertencia e lhe disseram que pertencia ao príncipe Jeta. Ele então foi ver o príncipe, mas este não queria vender, e lhe perguntou por que ele queria comprar aquele local. 'Para oferecer ao Buda Gautama.' 'Não, não, não o quero vender, talvez somente se você cobrisse aquele local de ouro.' Anatapindeva troxe então ouro para recobrir o chão para grande surpresa do Príncipe Jeta, que havia dito aquilo de brincadeira.


O solo se achava recoberto de ouro exceto por um pequeno local. Neste momento o príncipe disse que não tinha importância, que ele completaria e que ofereceria uma quantia para erigir o mosteiro. Anatapindeva sabia que o Buda gostava de lugares calmos e silenciosos e existem nos Sutras em pali muitas histórias deste tipo, onde o Buda aparecia como alguém muito calmo e silencioso. O Budismo recebeu muitas influências hindus, do brahamanismo, do Vedanta. A palavra 'shamon' por exemplo. É a mesma coisas que a palavra 'shaman' que vem das antigas religiões Hindus e que quer dizer 'aquele que está separado das más ações.' Igualmente a palavra 'sanysasin' 'aquele que renuncia ao mundo' que vem das antigas religiões Hindus e que foi integrada ao Budismo. O Budismo tomou emprestado muitas coisas ao Hinduísmo, mas a grande diferença é que no Budismo existe muito mais silêncio.


Existe um sutra que conta a história de Angrimala que era discípulo de um mestre. Ele era jovem, bonito e inteligente, e a senhora do mestre ficou loucamente apaixonada dele. Um dia o mestre se ausentou e sua senhora quis seduzir o jovem. Este respondeu, não, claro que não. A senhora ficou encolerizada e quando seu marido voltou, ela lhe contou mentiras dizendo que seu discípulo havia tentado a seduzir. Primeiro ele ficou surpreso pois tinha grandes esperanças com este discípulo, em seguida se encolerizou e decidiu preparar uma armadilha para ele. Ele chamou seu discípulo e lhe disse : 'Eu te ensinei tudo exceto uma coisa que você deve praticar. Você deve matar cem pessoas e da falange de seus dedos mindinhos, fazer um colar para você mesmo.' Isto pareceu estranho para Angrimala, mas como era um mestre extremamente respeitado, sério, ele começou a matar pessoas. Ele chegou à cifra de noventa e nove pessoas, não mais, e sua mãe desesperada ofereceu sua vida para seu filho. Naquela época, o Buda, passando não longe da cidade, ficou sabendo da história e dissuadiu a mãe de Angrimala de se auto-imolar.


O Buda se dirigiu à floresta onde se encontrava Angrimala e por três vezes os camponeses lhe foram alertar que era perigoso. Três vezes, isto confirma o perigo. O Buda continuou a avançar. Estava ficando muito difícil para Angrimala matar a centésima pessoa, pois todo mundo tinha medo dele e fugia. Ele viu o Buda se aproximar, ficou muito surpreso de ver aquela pessoa que era diferente das demais. É o que se chama do Sermão da Luz Radiante. Angrimala disse de si para si que era perfeito terminar sua contagem com uma tal pessoa. O Buda avançava lentamente, consciente que Angrimala estava emboscado, escondido, prestes a atacar, ele o ultrapassou e neste momento aconteceu algo estranho e miraculoso.


O Buda continuou a avançar lentamente e o Sutra diz que Angrimala se pôs a correr para o pegar. O Buda caminhava lentamente e Angrimala corria atrás dele e não conseguia o pegar e sem fôlego pediu ao Buda que parasse. O sutra diz : 'Angrimala se deteve e pediu ao Buda que continuava a avançar, que parasse, e o Buda se voltou e lhe disse : "Você é que tem que parar".' Algo escapava de Angrimala que se dizia : 'Eu estou parado e ele me pede que páre.' Ele perguntou : 'Por que você me diz isto, eu não compreendo.' O Buda lhe respondeu : 'Eu estou parado porque eu não mato, não roubo e não minto.' E com esta resposta Angrimala tornou-se um discípulo do Buda.


O sutra diz que Angrimala tornou-se um arhat. Mas se conta também que quando ele saia para fazer mendicância, as pessoas lhe jogavam pedras e quando ele voltava, ferido, sua tigela vazia e cheia de poeira. Então o Buda lhe dava comida e curava. O Buda lhe deu explicações, isto se chama o silêncio da paciência. Certo dia Angrimala estava costurando ou remendando um kesa ou um rakusu rasgado pelas pedras, um rei passou com soldados, viu aquele monge tranquilamente sentado costurando e desceu de seu cavalo, e se dirigindo a ele respeitosamente, lhe disse : 'Eu não lhe conheço, mas eu gostaria de encontrar o Buda.' Angrimala lhe disse : 'Um minuto por favor,' e se distanciou voltando em seguida com o Buda. O rei trocou amabilidades, perguntou o que se havia passado naquele dia, e inquiriu para saber quem era aquele monge tão calmo e sereno que ele não conhecia.' Buda não respondeu e o rei disse : 'Hoje eu vim porque fiquei sabendo que Angrimala habitava nesta floresta e eu gostaria de capturá-lo.' Buda lhe disse : 'Angrimala é aquele monge com o qual você se encontrou.' O rei então renunciou à ideia de o capturar.


A propósito deste silêncio da paciência, Bodhidharma falou de dois tipos de entrada no Caminho. Um era pela teoria, outra pela prática, pela experiência. Há um livro em francês de Bernard Faure sobre Bodhidharma. Portanto existem dois tipos de entrada para o Caminho e quatro tipos de práticas que correspondem às ações da vida passada. O fato de ser confrontado com coisas desagradáveis é a retribuuição dos atos desta vida passada e dizem que desta forma se pode quitar aquela dívida tranquilamente e não sofrer.






Sábado, 28 de fevereiro de 1999

Segundo Teisho

À tarde






Nesta manhã eu falei do silêncio do Buda e agora vou falar sobre como este silêncio entrou no Mahamuni. No Mahayana muitos Sutras falam sobre o silêncio e o mais célebre é certamente o Sutra Vimalakirti, que em japonês se chama Mimakyo. Mima Vimalakirti era um leigo, não um monge. Do ponto de vista do Mahayana, ele criticava os praticantes famosos do Buda. Eu mesmo não gosto muito deste Sutra porque ele é muito crítico, mas ele trata muitas coisas interessantes. Este Sutra se tornou muito célebre por causa do silêncio de Vimalakirti. Há neste Sutra um capítulo que se chama 'A entrada naquilo que transcende a verdade.' Neste capítulo, aparecem trinta bodhisattvas que acham que transcenderam a verdade. A verdade é também que quando nascemos, devemos morrer, ou nascimento e morte em oposição com algo que seria o nirvana. A outra verdade, é o sujeito e objeto, sujo ou puro, bem ou mal. Isto faz muita dualidade e é um problema entrar no mundo do dharma. Portanto Vimalakirti começou a perguntar a cada um dos bodhisattvas qual era seus conselhos sobre a forma de transcender a verdade. Cada um dos bodhisattvas respondeu, em seguida todos se voltaram ao bodhisattva Monju que era um personagem importante deste Sutra. Este respondeu que no dharma não existe nada a ser dito, nada a ser conhecido, nada a separar como pergunta e resposta e assim poderíamos entrar neste mundo que transcende a verdade.


Eu vi uma tradução deste Sutra em francês, mas não consegui a encontrar na biblioteca. Talvez que na Bibliothèque Nationale, ou na biblioteca do Museu Guimet se possa achá-la. Se alguém estiver interessado, eu lhes peço, leiam este Sutra. Finalmente Manjusri se voltou a Vimalakirti e lhe disse : 'Bem, agora cada um deu a sua resposta, e quanto a você, qual é a sua resposta ?'


É o momento dramático da história, cada um se voltou para ele e esperou sua resposta. O sutra diz que Vimalakirti não pronunciou nenhuma palavra e simplesmente continuou sentado. Esta parte ficou célebre como sendo o Silêncio de Vimalakirti. Os comentaristas dizem que este silêncio explodiu como um trovão. Aqui convém prestar atenção ao fato que este silêncio não se opõe à pergunta colocada. Cada um dos bodhisattvas se expressou sobre a pergunta, em seguida a resposta de Manjusri não é expressável pela linguagem, não podemos saber, conhecer e dizer com palavras e Vimalakirti que se calou não exprime uma oposição. Vimalakirti sentava-se em silêncio, mas ainda assim ele fala. Ele fala mais que os demais. Isto entrou na tradição do Zen em outras histórias, podemos verificá-lo no 'Hekiganroku', 'As Crônicas do Penhasco Azul,' ou no 'Shoyoroku', o 'Livro da Serenidade' no capítulo 48. Haviam pessoas que esperavam um teisho, o ensinamento do mestre, que não havia falado há muito tempo e as pessoas pediam, 'Lhe rogamos, ensine-nos.'


E o mestre se instalou e nada disse, somente permaneceu sentado em zazen. Houve um músico americano que imitou isto (Thelonious Monk). Num dia de concerto, ele entrou em cena, ficou diante do piano e não tocou. As pessoas se entreolharam estupefactas, mas ele não tocou e se foi. Às vezes uma compreensão superficial causa uma imitação, é bastante engraçado, mas isto pode ser perigoso. Portanto é preciso se lembrar a propósito do silêncio de Vimalakirti que aqueles que estavam presentes receberam mais do que palavras. O Budismo Mahayana considera este silêncio de Vimalakirti como o cume do silêncio e há pessoas que dão explicações. Mais tarde, num outro sesshin, nós prosseguiremos.



Neste sutra existem muitos aspectos importantes. O bodhisattva Manjusri visitou Vimalakirti porque este último havia ficado doente. Ele lhe perguntou : 'Você já se iluminou, como pode acontecer que fique doente ?' Vimalakirti respondeu : 'Fiquei doente porque numerosos seres humanos estão doentes e por isto eu também fiquei doente.' Para estar no mesmo mundo que os demais.


Podemos compreender isto facilmente, se alguém tiver um acidente, uma doença grave, sua mãe vai ficar muito preocupada e ela também vai contrair a doença. Buda disse a seus discípulos para visitarem Vimalakirti no hospital, mas os grandes discípulos como Ananda ou Mahakasyapa não quiseram ir. Por que ? Cada um destes grandes discípulos tinha uma especialidade. Shariputra por exemplo, era um especialista da compreensão da vacuidade. Ele dava explicações sobre a vacuidade, mas seu ponto de vista era Hinayana. Vimalakirti lhe disse : 'Não, o ponto de vista Mahayana é assim e assado,' e isto colocava tudo de pernas para baixo, e todos estes grandes discípulos estavam um pouco perdidos. Cada um destes grandes discípulos se viu derrotado em suas próprias especialidades. Um destes discípulos que voltava da mendicância, foi ao mosteiro e encontrou com Vimalakirti que voltava do mosteiro para ir à cidade.


O monge lhe perguntou : 'Onde você vai assim ?' 'Vou ao mosteiro.' 'Mas o mosteiro é na outra direção, por aí você vai para a cidade.' Vimalakirti disse : 'Meu mosteiro é o mundo, onde eu estou, na cidade ou em qualquer lugar é meu mosteiro.' Assim Vimalakirti começou a dar uma explicação sobre o que seria o verdadeiro mosteiro do ponto de vista do Budismo Mahayana, não do mosteiro na floresta. E assim ninguém ia lhe ver. Afinal foi o bodhisattva Manjusri, o bodhisattva da sabedoria, que foi escolhido e que jamais havia se encontrado com Vimalakirti. Na Escola Zen, no zendo, a sala de meditação, há no altar uma estátua de Manjusri, geralmente sentado sobre um leão, com uma espada na mão, símbolo da sabedoria que decepa as ilusões. Existe uma imagem de um monge zen representando Manjusri cavalgando um leão, com uma espada na mão, seguido de numerosos discípulos do Buda, curioso de ver o que iria se passar no encontro entre Manjusri e Vimalakirti. Há numerosos expectadores deste Sutra e podemos ver que Manjusri entra no quarto de Vimalakirti deitado em sua cama.


Era um quarto que compreendia quatro tatamis e meio de espaço, o que dava um quadrado de dois metros e setenta centímetros. O Sutra diz que Manjusri entrou no quarto e também não somente os discípulos do Buda, mas também toda a assembléia. Logicamente era impossível dar tanta gente no cubículo, mas entraram. No Zen, isto se chama além do pensamento lógico. Hogio, é um quadrado de um tatami e meio e um tatami e meio por um tatami e meio, e isto dá quatro tatamis e meio de superfície. Hoje na Escola Zen, o abade de um mosteiro é chamado Hogio san, porque o quarto do mestre dá Hogio, é uma pequena superfície de quatro tatamis e meio. Este nome Hogio provém deste Sutra do Mahayana. Ali está o mestre e o universo inteiro entre neste pequeno cubículo. Começa então um diálogo bastante longo entre Manjusri e Vimalakirti durante o qual Mahakasyapa, que era o sucessor do Buda ou Sariputra começaram a ter fome. 'Tudo isto vai indo muito bem, mas se pudermos comer, isto não seria mal.' Vimalakirti compreendeu imediatamente no que o outro estava pensando e lhe disse : 'Então vocês vieram aqui para comer ou para seguir nossa conversa?' Este sutra é muito cômico pois existe uma crítica de todos os grandes discípulos do Buda. Mas por outro lado todos ficaram muito impressionados e pétalas de flor começaram a tombar do céu.


Foram as divindades celestes, Brahma, os anjos, que ouvindo a conversa e admirando, espargiram estas flores. A história diz que aqueles que tinham tido o despertar, logo que as pétalas os tocavam tombavam no chão. Aqueles que não tinham tido o despertar, as pétalas colavam neles. Os discípulos tiveram vergonha, pois as pétalas colavam sobre eles, eles tentavam varrê-las fora, mas não adiantava, Vimalakirti lhes disse, 'Mas por que vocês as querem varrer fora ? Se quiserem removê-las, nunca sairão. Se não se preocuparem, elas partirão naturalmente.' Estas flores tinham um valor simbólico, como as palavras, críticas pronunciadas por alguém aqui, na ocorrência, eram flores perfumadas. Mas se estivermos apegados não podemos nos liberar. Assim este Sutra evoca de forma simbólica muitos aspectos do ponto de vista Mahayanista. Se tivermos tempo faremos a tradução francesa e a poderemos estudar.





Domingo, 29 de fevereiro de 1999

Teisho da manhã







Durante o decurso deste sesshin e durante estes três teishos, tratamos do silêncio, silêncio do Buda, silêncio do Mahayana, silêncio de Dogen Zenji. Tradição do silêncio que flui do Buda até Dogen Zenji e até nós. Nos mosteiros Zen nós temos três lugares onde o silêncio pode ser observado : o primeiro é o zazendo, o segundo é o 'tosu,' o banheiro, e o terceiro, a sala de banho.


Nestes três lugares mantemos o silêncio completo. Eu estou pensando num quarto lugar, a cozinha, que é um lugar de encontro e onde se fala muito. A cozinha é um lugar onde se deve manter o silêncio também. Ontem, eu disse durante o zazen para os principiantes, eu lhes peço que mantenham os olhos abertos. Depois de dez, quinze,vinte anos de prática, somos sempre principiantes. Mas no 'Fukanzazengi,' 'Manual de Meditação' de Dogen zenji, este disse : 'Os olhos devem ser mantidos constantemente abertos.' Quando fechamos os olhos nos sentimos bem e temos a impressão de poder entrar facilmente no samadhi, mas o zazen não foi feito para se sentir bem.


Se você sentir alguma coisa, você estará sentindo sua própria presença e o zazen, é ao contrário, você deveria desaparecer. Se fechar os olhos então facilmente pode adormecer, chamamos isto de o 'Diabo do Sono' e quando ele vem é muito difícil de resistir a ele. É dito que quando vier o sono, que tentemos manter os olhos abertos para não adormecer, ou então que massageemos bem os olhos. Ou saiamos do zazendo e lavemos o rosto com água fria. Para os veteranos, eu digo, tentem manter o 'hokaijoin', o 'mudra das mãos correto'. Na Escola Rinzai, não se incomoda muito com o 'hokaijoin,' mas na Escola Soto este mudra é muito importante, porque este mudra mostra o seu estado durante o zazen. Manter o hokaijoin de uma forma constante e correta é muito difícil. Frequentemente os polegares se separam, não posso ver durante o zazen, mas penso que muitos têm polegares que não mais se tocam. Quando os polegares estão tensionados isto indica uma tensão, um nervosismo, e pelo contrário, quando eles se separam é que se está relaxado demais, que temos sono. É preciso portanto separar estes dois aspectos, de um lado a melancolia ou o adormecimento, e do outro a agitação mental. Hokaijoin mostra seu estado mental, não é uma teoria, é uma prática. Não ser uma destas duas coisas, é muito difícil : manter os olhos abertos e manter constantemente o hokaijoin correto.

Agora vou tomar de um capítulo do Shobogenzo, que diz respeito à atividade e prática do Buda.

'O grande Mestre Shinkaku da montanha de Seppo ensinava à assembléia. « Os Budas dos Três Mundos estão no interior da chama do fogo e rodam a grande roda do Dharma. » O grande mestre Shuitsu do Templo de Gensha disse : «A chama prega o Dharma para os Budas dos Três Mundos e os Budas dos Três Mundos colam o ouvido ao chão para ouvir. »


O Mestre Zen Engo acrescentou o seguinte : 'Seppo merece ser chamado de o barão branco, mas a baronesa negra também está presente. Um e outro se respondem e se trocam um no outro em um momento, os deuses aparecem e os demônios desaparecem, uma chama ardente cobre o cosmos, o Buda ensina o Dharma. O cosmos é uma chama ardente, o Dharma prega ao Buda. Dispersos pelo vento, montes de feno e coisas complicadas são levadas embora. De uma só palavra Vimalakirti foi colocado à prova e venceu.'


O que entendo por montes de feno, é a história de uma coisa complicada, é como a ideia de procurar uma agulha num monte de feno, montes de feno dispersos pelo vento isto dá outra coisa que imagens nas quais nos embaralhamos. O barão branco e a baronesa negra é algo como Arsème Lupin e Fantomas, que são bandidos célebres, a baronesa negra é mais hábil que o barão branco.


'O grande mestre Shinkaku da montanha Seppo ensina à assembléia. Os budas dos Três Mundos se encontram no interior de uma chama do fogo e giram a grande roda do Dharma.' Os Budas dos Três Mundos, são os budas dos três tempos, passado, presente e futuro. Mas a prática do zen é sempre aqui e agora. Não falamos dos sete budas do passado, ou do buda do futuro, Maitreya, falamos de nós mesmos. Aqui, 'na grande chama do fogo foi girada a roda do dharma.' Esta expressão, este koan, é preciso compreender o que quer dizer Mestre Seppo com isto, com esta grande chama. O que ele quer dizer, este mundo no qual vivemos, este mundo dos fenômenos é como uma casa em chamas. E desta casa é preciso que saimos senão morremos. E este fogo onde gira a grande roda do Dharma é o lugar onde praticamos o caminho, o Dharma. Quando escapamos desta casa que arde em chamas, para onde vamos ? As pessoas da Escola da Terra Pura vão para o oeste, ali onde se encontra a presença do Buda Amitaba e onde se espera durante milhares de anos até que se manifeste Maitreya. Mas nossa prática é aqui e agora. A vida cotidiana não é muito fácil, existem muitos, muitos problemas, mas estes problemas são o fogo e portanto este fogo é muito importante, e neste fogo podemos girar o veículo do grande Dharma. Também, por necessidade de escaparmos e aceitarmos tais problemas, se constituem numa grande oportunidade de praticar.


Todos os dias, os problemas estão ali e devemos nos alegrar. Ah, que oportunidade, um problema a ser resolvido! Não escapar, aceitar o problema e a cada vez existe uma grande solução. Sim, primeiramente é preciso crer nisto, se não crermos é porque ainda praticamos o suficiente. Queremos escapar, mostrar as costas, fugir. Na vida cotidiana, cada vez que encontramos um problema, é um momento do despertar. Se tivermos um despertar, começaremos a pregar o Dharma, faremos girar a roda do Dharma. Mas no dia seguinte, um outro problema. Isto volta constantemente. Dizer que tivemos a iluminação uma vez e que isto resolveu todos nossos problemas, não, não seria somente uma vez. No dia seguinte, chega um problema completamente diferente. Mas se o aspecto principal do Dharma não tiver sido compreendido, muitas coisas que parecem ser diferentes aparentemente se juntam somente num parecer.


O primeiro é mestre Seppo e o segundo é mestre Gensha, que é o discípulo de mestre Seppo.

Mestre Gensha disse : 'A chama prega o Dharma para os Budas dos Três Mundos e os Budas dos Três Mundos colam seus ouvidos no chão para ouvir.' A chama do fogo começa a ensinar o Dharma para os budas e o Buda pratica. Mais uma vez o fogo e a chama. No Shobogenzo se algo não for compreendido, volte ao zazen, pois isto fala constantemente do zazen. Sentado em zazen, chega o kontin, a melancolia, o sono ou sanran, a agitação, muitos pensamentos e continuando a prática isto desaparece mas sempre há algo que prossegue na consciência, e isto é a discriminação, o despertar é bom e a ignorância não é boa, assim discriminamos.


Queremos obter a iluminação, o satori, o satori, o satori e continuamos sentados. Quando entramos no zazen, é o fogo. Como podemos entrar neste mundo da não-dualidade? O satori e a ilusão. Buda e pessoas comuns. Deus e o mundo. Criador e criatura. Bem e mal. Neste mundo nada há que não seja dualidade. Todo mundo deseja um aspecto que cremos ser o bem. E o zazen é a volta à origem, antes que o mundo tivesse sido dividido e assim o zazen se torna o fogo. O fogo queima e estes dois desaparecem. É a função do fogo. É preciso praticar a qualidade do zazen e nosso sesshin é muito ruim.


Não é uma questão individual, a energia da Sangha permite que nos ajudemos uns aos outros de uma forma muito precisa, mas isto não é grave. Às vezes o zazen vai muito bem como o cume de uma montanha, outras vezes é dramático, as pessoas bocejam, temos dificuldades. O que conta, não importa como, é que continuemos a praticar. Alguns que moram em Paris, não podem vir ao zazen da terça feira, da quinta feira, e do domingo, mas para os sesshins eles estão sempre lá.


E eles começam a tomar consciência que estes sesshins de uma semana, três vezes por ano são muito importantes para entrar com todas nossas forças e se juntar com a energia de todos afim de que a qualidade melhore. Falar do shikantaza, somente sentados, mas existem duas maneiras de considerar este somente sentados. Isto pode ser sentado sentado de qualquer maneira, ou sentado justamente. O zazen é estar sentado, si mesmo, o si mesmo verdadeiro, como a natureza de Buda que começa a se manifestar. Isto também faz sentido, girar a roda do Dharma. Quando começamos a praticar o Budismo, no começo, ouvimos o que o mestre diz e neste caso é o Dharma que nos gira, mas fazendo o que diz o mestre, ou o que ensinam os sutras, simultaneamente, somos nós neste caso que giramos a roda do Dharma. Da última vez tivemos oportunidade de refletir sobre o Budismo chegando fisicamente do leste para o oeste.


E a questão era de se adaptar a esta terra. Tradicionalmente no Budismo Zen dizemos que é entornar um copo de água para um outro copo sem perder nem uma só gota. Mas historicamente podemos bem constatar que o Budismo na Índia, na China, no Japão, no Tibete, toma uma forma diferente a cada vez. Portanto, existe uma adaptação. Mas ainda uma vez, a questão é, qual é a essência do Budismo ? Todas estas formas são aparentemente diferentes, mas porque todas elas se chamam Budismo ? Qual é a coisa principal que é preciso se transmitir ? Como esta coisa se adapta nos povos? Se não compreendermos a origem, como poderemos querer que se adapte ? Não é escolher o que preferimos, não se trata absolutamente disto. Estes métodos do zazen se transmitem. Graças a Mestre Deshimaru, quantas pessoas começaram a praticar e continuam a fazê-lo ? Isto é o fogo. Que queima todos os hábitos.


Última parte :


O que disse Mestre Engo : 'Seppo merece ser chamado de o barão branco, mas a baronesa negra está presente também. Um e outro se respondem e se alteram um ao outro momentaneamente, os deuses aparecem e os demônios desaparecem, uma chama ardente cobre o cosmos, o Buda ensina o Dharma. O cosmos é uma chama ardente, o Dharma ensina o Buda. Levados pelo vento, montes de feno e coisas complicadas foram dispersados. De uma só palavra, Vimalakirti foi colocado à prova e venceu.'


Estes dois ladrões, um branco e um negro são o contrário um do outro, mas todos os dois são ladrões. De um lado eles são completamente diferentes e do outro lado completamente idênticos. Mestre Seppo quer dizer que onde se gira a roda do Dharma, no oposto, nas dificuldades, nos sofrimentos, nos momentos quando podemos perceber o Dharma. Pois nos momentos mais críticos podemos constatar a presença do Buda. Com a força de nossa imaginação, de nossa criatividade, com nossa dor nos realizamos de alguma forma. Como um soldado que perdeu uma batalha ou a guerra e que foge a pé, esfomeado, fatigado, no frio. Muitos soldados caem ao solo e morrem. Mas um soldadeo que sorri, que continua a avançar sorrindo, no fundo da noite, pelo poder da imaginação, ele imagina que no fim de uma rua irá aparecer uma linda moça e que lhe sorri e lhe espera, mais ainda para frente ele caminha, cinco metros, dez metros, não, cinco, sim.


E quando ele percorre cinco metros, ele diz mais uma vez cinco metros. E ele começa a tagarelar desta forma, e com isto quinhentos metros transcorreram. E isto, este poder da imaginação, quer seja na prisão ou em qualquer parte, ninguém pode roubar dele. Nesta chama muito forte que cobre o cosmos inteiro, no interior, a cada dia se produz algo. Como é bom sentir nostalgia, que algo se produz. Podemos imaginar que fomos ao paraíso, mas como isto é aborrecido ! Não se produz nada. Ah, é muito bom ser um ser humano. Nós recebemos este corpo mesmo que a distância para a Índia seja grande, nos dias de hoje já não é mais tão longínquo, já há mais de dois mil anos viveu o Buda, e agora aqui na França, podemos dizer que é um país do Catolicismo, mas podemos ouvir o Dharma, não somente o ouvir, mas também o praticar, podemos ensiná-lo, como, sentados em zazen. O zazen é formidável. Na Escola Soto, temos esta prática, o samadhi, uma só ação e se pudermos entrar dentro disto, esta ação é tudo. Assim eu peço energicamente que a qualidade do zazen se torne mais forte.


Mas não somente o zazen como uma faca que corta esta dualidade, quero que este fogo cubra o universo inteiro. E neste fogo vocês se mantenham e girem a roda do dharma e desta forma nossa forma de viver neste mundo se torne muito diferente. E a cada vez que resolvermos um problema, que isto seja um despertar, isto é ensinar o Dharma. E todo mundo pode fazer isto. Isto não é falar dos budas do passado, dos budas do futuro, é a questão de você mesmo, o seu eu mesmo verdadeiro. Mas como podemos mannifestar o Dharma ? O zazen pelo zazen, o Dharma que é a vida pura do Buda se manifesta durante o zazen e jogamos fora corpo e mente. O vento do Zen corta todas estas confusões. Na origem, o termo que era empregado para confusões do mundo evoca o parasita que recobre uma árvore, e que depois não se sabe mais quem é árvore e quem é parasita. É muito, muito forte, não se pode mais os distinguir uma vez que estejam misturados. O zazen corta esta dualidade na raiz e com o zazen vem a visão, a sabedoria, senão é preciso ter a paciência de aceitar.


É disto que de uma só palavra podemos ver onde está Vimalakirti. Mantemos o silêncio, mas o problema não está resolvido forçosamente. Ontem eu disse que o silêncio não está oposto à palavra. Seus mudras, seus hokaijoin, mostra seus zazens. Suas posturas parecem ser boas, mas seus mudras estão amarrotados, então seus zazens também estão amarrotados. Assim cada vez que o considerem, concentrem-se sobre o hokaijoin e rapidamente suas posturas vão mudar. Cada vez que voltarem à postura, é o satori. Depois de trinta anos, quarenta anos de zazen, é assim. O zazen não depende do fato se o sentimos ou não, mas do fato que aqui viemos para praticar, para estar sentados aqui para praticar, para estar sentados, é uma coisa muito grande e isto não podemos sequer imaginar o que seja, é o que chamamos a prática do Buda, atividade do Buda. No momento atual, com esta teoria, a Escola Soto enfatiza as cerimônias e isto se tornou o formalismo que perdeu o contato com a energia da vida. A prática do zazen está começando a ser esquecida. Todos os mestres falam do zazen, mas todos os mestres não praticam o zazen, aqui jaz a diferença. Eu tive uma prática muito forte, há trinta anos atrás, quando eu era muito jovem. E agora ? Pobre, um pouco pobre. Mas a cada vez, eu volto para o zazen, graças a isto podemos ouvir o Dharma e vocês não podem responder. E sentados assim, ensinamos, não há dualidade entre aquele que fala e aquele que ouve. Isto é um grande ladrão. Existe o branco e o negro, muitos aspectos diferentes, mas isto não é importante. Estar somente sentados. Cortar. E este zazen aqui se torna universal. Transcende e ultrapassa o espaço, a época, a história. O Buda, buda dos Três Mundos, passado, presente e futuro, vocês são Buda, existe esta presença absoluta, passado, presente e futuro em vocês.

Última parte do capítulo :


'Sobre o cosmos inteiro e cobrindo toda a terra, se estendendo sobre o passado e sobre o presente, aqueles que o atingiram, não o vulgarizam e aqueles que o esclareceram, não o alteram.' O que diz Dogen aqui é que uma pessoa que pratica o zazen é já uma pessoa superiora e a atividade através disto se torna uma atividade nobre. Quando fazemos uma cerimônia, não se trata de fazer uma cerimônia perfeita onde todos os movimentos sejam impecáveis, isto seria o formalismo, não, é algo completamente diferente, é a ação do Buda. No zazen já, a atitude é muito nobre, mas na vida cotidiana quando estamos confrontados com o sofrimento, com a crítica, com ataques, a forma com a qual reagimos deve ser nobre. Vocês podem se aplicar a tal coisa quando estiverem sendo confrontados com dificuldades e que entrem dentro, então isto tudo pode se desenrolar muito mais facilmente do que poderíamos ter achado. Creiam nisto, eu o verifiquei eu mesmo. Isto funciona cento e vinte por cento. Mas se tiverem nem que seja a menor dúvida a este respeito, isto não funcionará.





Fim do sesshin.







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