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  • mosteiroeishoji

Quadragésimo quarto sermão


A pobreza na vida espiritual


de


Meister Eckhart


QT 32

BEATI PAUPERES SPIRITU QUIA IPSORUM EST REGNUM CAELORUM

(Mat. 5:3)

 

A felicidade abriu sua boca de sabedoria e afirmou: “Bem-aventurados os pobres de espírito, pois deles é o reino dos céus”. Todos os anjos, todos os santos[1] e tudo que foi nascido deve ficar silente quando a sabedoria do Pai abre Sua boca: pois toda sabedoria dos anjos e das criaturas é pura loucura diante da sabedoria insondável de Deus. E foi esta sabedoria que declarou que são abençoados os pobres.


Existem dois tipos de pobreza. A primeira é uma pobreza externa, e isto é útil e deve ser muito elogiada naquele que a pratica voluntariamente, por amor a Nosso Senhor Jesus Cristo, pois Ele mesmo tinha isto nesta terra. Sobre esta pobreza eu nada mais direi neste momento. Mas existe uma outra pobreza, uma pobreza que é de natureza interna, e é a esta que se aplicam as palavras de Nosso Senhor quando ele disse: “Bem-aventurados os pobres de espírito”.


Agora eu rogo ao mel de suas almas que sejam desta forma para que possam compreender este sermão: pois que pela verdade eterna eu digo que a menos que sejam como esta verdade a qual abordaremos neste momento, não será possível que me compreendam.

Algumas pessoas indagaram de mim o que vem a ser a pobreza, e o que é um homem pobre. Responderei a tal da seguinte forma:


O Bispo Alberto diz que um homem pobre é aquele que se satisfaz com todas as coisas que Deus criou e isto está bem dito[2]. Mas vamos falar melhor, tomando a pobreza em um sentido mais elevado: É um pobre aquele que nada quer, que nada sabe e que nada tem. Falemos neste momento sobre estes três pontos, e eu rogo a vocês que compreendam esta sabedoria se puderem: mas se não puderem compreender, não precisam ficar preocupados, porque vou dizer uma tal verdade que muito poucas pessoas podem compreender.


Em primeiro lugar, é um pobre aquele que nada quer. Existem pessoas que absolutamente não compreendem o que isto quer dizer: são aqueles que ficam muito apegados a asceticismos e práticas externas, achando que muito fazem ao se submeter a tais práticas. Possa Deus lhes ter em compaixão, pois tão pouco compreendem da verdade divina! Costumam chamar estas pessoas de santas ou de sagradas porque aparentam sê-lo externamente, mas eu digo que por dentro nada mais são que bons idiotas, pois ignoram completamente o que vem a ser a verdade divina. Estas pessoas dizem que o pobre é aquele que nada deseja e explicam isto da seguinte forma: A pessoa deve levar sua vida de tal forma que jamais faça o que quer em nada que seja, mas deve se esforçar por realizar a maravilhosa vontade de Deus. Está tudo bem com estas pessoas porque suas intenções são boas, e podemos até chegar a lhes elogiar estas suas vontades. Possa Deus em Sua misericórdia lhes abrir os reinos dos céus! Mas pela sabedoria de Deus eu afirmo que tais pessoas não são de forma alguma pobres, nem se parecem mesmo que seja levemente aos pobres. São muito admirados por aqueles que nada sabem, mas eu digo que não tem o menor valor, são completos idiotas sem qualquer compreensão que seja da verdade divina. Talvez até que ganhem os céus por suas boas intenções, mas da pobreza da qual falaremos agora não tem a menor idéia que seja.


Se então, me perguntassem o que vem a ser o pobre que nada quer, eu diria o seguinte: Enquanto o homem quiser fazer a vontade de Deus através de sua vontade própria, esta pessoa ainda não tem a pobreza a qual mencionamos: pois esta pessoa tem uma vontade para servir a vontade de Deus, e eis que esta não é a verdadeira pobreza! Pois para que a pessoa tenha esta verdadeira pobreza deve estar tão liberta de sua vontade criada como quando ainda não era, isto é, como quando ainda não existia. Pois eu declaro pela verdade eterna, que enquanto tivermos vontade de realizar a vontade de Deus, e enquanto quisermos possuir a eternidade e Deus, ainda não somos pobres: pois o pobre é aquele que nada quer e que nada deseja.


Enquanto eu estava ainda em minha primeira causa, eu ainda não tinha nenhum Deus e era minha própria causa: então eu nada queria e nada desejava, pois eu era o ser puro e um conhecedor de mim mesmo no gozo da verdade. Então eu queria a mim e nada queria de mais: o que eu queria eu era, e o que eu era eu queria, e assim estava eu livre de Deus e de todas as coisas. Mas quando abandonei meu livre arbítrio e recebi meu ser criado, então eu possuía um Deus. Pois antes que houvesse criaturas, Deus não era “Deus”: Ele era Aquilo que Ele era. Mas quando as criaturas entraram para a existência e receberam seus seres criados, então Deus não era “Deus”em Si mesmo, era Ele “Deus”nas criaturas[3].


Quando dizemos que Deus enquanto “Deus” não é o objetivo supremo das criaturas, isto quer dizer que o mesmo status elevado é possuído mesmo pela menor das criaturas de Deus. E se tomássemos como exemplo uma mosca que tivesse a razão, e que pudesse sondar intelectualmente as profundezas eternas de Deus, do ser de Deus, do qual ela mesmo proveio, teríamos que dizer que Deus com tudo aquilo que O torna “Deus” seria incapaz de satisfazer e de realizar aquela mosca! Portanto rezemos a Deus para que possamos estar livres de Deus, para que possamos com isto ganhar a verdade e gozá-la eternamente, ali onde o anjo mais elevado, a mosca e a alma são perfeitamente iguais, ali onde eu me quedei e queria aquilo que eu era, e era aquilo que queria. Então podemos concluir: se a pessoa é realmente pobre de vontade, deve querer e desejar tão pouco quanto queria e desejava enquanto não era ainda. E é desta forma que a pessoa chega a ser pobre pelo não querer.


Em segundo lugar, ele é pobre que nada sabe. Já dissemos algumas vezes que a pessoa deve viver como se não vivesse nem para si mesmo, nem pela verdade e nem por Deus sequer. Mas agora faremos diferentemente e iremos mais além, dizendo: Para que a pessoa possua esta pobreza deve viver de tal forma que não esteja consciente que não vive para si mesmo, ou para a verdade, ou para Deus. Deve estar possuído de uma tal falta de todo conhecimento que nem saiba nem reconheça, nem sinta que Deus habite nele: mais ainda, deve estar livre de toda compreensão que nele possa existir. Pois que quando esta pessoa estava no ser eterno de Deus, nada mais habitava nele: o que ali habitava era ele mesmo. Eis pois por que declaramos que a pessoa deve estar tão livre de seu próprio conhecimento quanto naquela época em que ele ainda não era. Esta pessoa deve deixar que Deus funcione como desejar, e ele mesmo nada fazer, estando inativo.


Pois que tudo que tudo que vem de Deus é pura atividade: o trabalho verdadeiro da pessoa é amar e conhecer. Agora a pergunta fica colocada: Onde reside a bem-aventurança pela sua maior parte? Alguns mestres dizem que está no conhecer[4], enquanto outros dizem que está no amor[5]: outros dizem que está em conhecer e em amar e estes são o que melhor dizem. Mas nós dizemos que não é nem em conhecer nem em amar: Pois que existe algo na alma de onde vêm tanto o conhecimento quanto o amor: Mas isto mesmo nem conhece nem ama da forma que o fazem os poderes da alma. Quem conhece isto, conhece a origem da felicidade. Isto não tem um antes ou um depois, nem espera que algo venha a si, pois isto não pode nem ganhar nem perder. E assim isto está privado do conhecimento que Deus esteja nele funcionando: ao invés isto é apenas si mesmo, gozando a si mesmo na forma de Deus. É assim que eu digo que a pessoa deve estar quitada e liberta que nem conheça e nem perceba que Deus esteja nele funcionando: desta forma a pessoa é pobre.


Os mestres dizem que Deus é um ser, um ser intelectual que conhece tudo. Mas nós dizemos que Deus não é um ser e que não é intelectual, e que sequer conhece isto ou aquilo. Assim é que Deus está livre de todas as coisas, e assim mesmo Ele é todas as coisas. Para ser pobre de espírito, a pessoa deve estar pobre de todo seu conhecimento: não conhecendo coisa alguma, nenhum Deus, nenhuma criatura, nem a si mesmo. Isto é necessário, que a pessoa não deseje conhecer ou compreender qualquer coisa que seja dos trabalhos de Deus. Assim a pessoa pode chegar a ser pobre de seu próprio conhecimento.


Em terceiro lugar ele é um pobre que nada tem. Muitos existem que dizem que a perfeição é realizada quando não mais se tem coisa alguma materialmente na terra e isto é verdade em um sentido, quando é voluntário. Mas não foi este o sentido em que o quis mencionar. Eu já disse antes, aquele que é pobre não é aquele que quer fazer a vontade de Deus, mas aquele que de tal forma vive que está livre de sua própria vontade e da vontade de Deus, assim como estava quando ainda não era. Desta pobreza declaramos que é a mais elevada. Em segundo lugar, dissemos que é o pobre aquele que nada sabe do funcionamento de Deus dentro de si. Aquele que está tão livre do conhecimento e da compreensão de Deus como Deus mesmo está de todas as coisas, esta pessoa então tem a pobreza mais pura. Mas esta terceira pobreza é a mais correta, que é quando a pessoa nada tem, e da qual vamos discorrer neste momento.


Prestem atenção no seguinte! Eu disse com frequência no passado e eminentes autoridades também o fizeram, que a pessoa deve estar de tal forma liberta de todas as coisas e de todos os trabalhos, tanto de dentro como de fora, que possa ser uma casa digna de Deus, onde Deus possa trabalhar. Agora digamos algo de mais além. Se o homem estiver livre de todas as criaturas, de Deus e de Si mesmo e se mesmo assim Deus achar um lugar nele onde possa funcionar, então declaramos que enquanto isto estiver naquele homem, ele ainda não é pobre na pobreza mais pura. Pois que não é a intenção de Deus em Seus trabalhos que a pessoa deva achar um lugar dentro de si onde Deus possa funcionar: pois a pobreza do espírito quer dizer estar tão livre de Deus e de todos Seus trabalhos que Deus, se desejar trabalhar na alma, é Ele mesmo o lugar onde possa funcionar, o que aliás Ele faz com a maior satisfação. Pois que se Deus achar uma pessoa tão pobre, então Deus realiza Seus trabalhos e a pessoa se queda passiva a Deus, então Deus é o próprio lugar onde funciona, sendo Deus como é, um trabalhador. É justamente aqui, nesta pobreza, que a pessoa dá entrada naquela essência eterna que ele foi uma vez, que é agora e que será por todo sempre.


Esta é a palavra de São Paulo. Diz ele: “Tudo que sou, sou pela graça de Deus” (1 Cor. 15:10). Este sermão parece se elevar acima da graça e do ser e da compreensão e da vontade e de todo desejo, então como podem ser verdadeiras as palavras de São Paulo? O fato é que são verdadeiras as palavras de São Paulo: era forçoso que a graça de Deus nele se encontrasse, pois a graça de Deus causou com que aquilo que em si era acidental se aperfeiçoasse como essência. Quando a graça terminou seu trabalho, Paulo permaneceu aquilo que ele era.


Assim dizemos que a pessoa deve ser tão pobre que nem possua nem tenha qualquer lugar onde Deus possa operar. Preservar um lugar é preservar a distinção. Eis pois que rezo a Deus que me livre de Deus, pois meu ser essencial está acima de Deus, tomando Deus como a origem das criaturas. Pois naquela essência de Deus na qual Deus se encontra acima de ser e de distinção, ali eu era eu mesmo e me conhecia a mim mesmo de tal forma que me constituísse neste homem que aqui está. Portanto eu sou minha própria causa de acordo com minha essência que é eterna e não de acordo com meu vir a ser, que é temporal. Portanto sou não-nascido, e de acordo com meu modo não-nascido, não poderei jamais morrer. De acordo com meu modo não-nascido fui eternamente, sou agora e serei para todo sempre. Aquilo que sou por virtude do nascimento, deve por força vir a perecer, já que é mortal. No meu nascimento todas as coisas também nasceram, e eu era a causa de mim mesmo e de todas as coisas: se eu o quisesse, não teria sido e todas as coisas não teriam sido. Se não tivesse sido, Deus também não teria sido. Sou eu a causa de Deus ser Deus: se não tivesse sido, Deus então não teria também sido Deus. Mas vocês não precisam saber disto.


Um grande mestre disse que seu abandonar corpo e mente é mais nobre que sua emanação e isto é um fato. Quando fluí desde Deus, todas as criaturas disseram: “Eis que Deus existe!”, mas isto não pode me fazer abençoado, pois que através disto eu me percebo como criatura. Mas no meu abandonar corpo e mente, onde me quedo livre de minha vontade, da vontade de Deus e de todos seus trabalhos e do próprio Deus mesmo, então me encontro acima de todas as criaturas e não sou mais nem Deus nem criatura, mas sim aquilo que era, que deverei para sempre permanecer sendo. Ali é que receberei um selo que me elevará acima de todos os anjos. Com este selo ganharei uma tal riqueza que não ficarei contente com Deus enquanto Deus, ou com todos Seus trabalhos divinos: pois que este abandonar corpo e mente me garante e me confirma que eu e Deus nada mais somos que uma só coisa. Então é que sou o que era, então não sou nem crescimento nem decadência, pois que então sou a causa que não se move e que com isto move todas as demais coisas. Aqui Deus não encontra nenhum lugar no homem, pois que o homem através de sua pobreza ganha para si mesmo o que ele foi eternamente e que deverá para sempre permanecer sendo. Aqui Deus é uma só coisa com o espírito, e esta é a pobreza mais elevada que a pessoa pode conceber.


Se alguém houver que não possa compreender isto que foi dito, não precisa se preocupar com nada. Pois enquanto a pessoa não for igual a esta verdade, não pode compreender minhas palavras, pois esta é a verdade nua e crua que proveio diretamente do coração de Deus.


Vivamos nós para experimentar isto eternamente, a tal nos ajude Deus.


Amém.




[1] Do evangelho para o Dia de Todos os Santos (1° de novembro).

[2] Abertus Magnus, Enarrationes in Matt., 5:3.

[3] O que Eckhart afirma diz respeito a existênca do homem antes de sua criação, uma idéia no actus purus do chão divino do ser, onde a ideia de um homem individual está em unidade essencial com a Essência de Deus, na qual, portanto, ‘Eu’ nem sabia nem tinha nenhum ‘Deus’ (DW II, 509). 

[4] Os Dominicanos.

[5] Os Franciscanos.

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